Existia o som de um riacho próximo. Um simples filete de água que vencia as pedras ameaçadoras do fundo do abismo. Sua cabeça doía e cada ferida em seu corpo ardia como fogo. Instintivamente levara a mão cansada a fronte e percebeu sangue escorrendo pela lateral da cabeça. Ainda meio zonzo, observou o alto buscando a distância da queda. O final da razão, pois a queda seria fatal. Enormes e altas paredes ladeavam o humilde rio, tão altas que o topo naquela manhã não passava de uma vaga visão nebulosa.
Olhou ao redor, dentro da escuridão. Seus olhos de anão penetravam as trevas revelando um mundo em tons de cinza. Milhares de ossadas de diversas formas faziam parceria a hostilidade dos pedregulhos pontiagudos. Entre os restos mortais um homem surgia de seu esconderijo. Uma juba e barba castanha lhe cobria parcialmente a expressão de receio pelo recém despertar de nosso herói, como se ele fosse a grande novidade naquele mundo escuro e sem vento.
- Olá. Meu nome é Ubbal, Esquilo-sorrateiro. – O homem colocou-se sentado ao lado do anão em um salto. Parecia franzino, a sombra de um homem são e saudável de algum passado perdido. – Você cai de qual lado?
Nosso herói fitou acima buscando alguma lembrança, porém, daquele ponto de vista era impossível ser preciso. Balançou a cabeça negando qualquer conhecimento.
- Cai do lado dos gorilas ou dos raptores?! – Aquelas palavras não faziam sentido para ele, mas algo lhe emergia à percepção. Era capaz de compreender o humano mesmo nunca sabendo como falar seu idioma. Arriscou timidamente o dialogo.
- Da onde é?
- Sou da Floresta do Grifo. Era um andarilho. Viajava com o Círculo do Urso. – A Floresta do Grifo lhe era conhecida, a floresta dos homens de cabelos castanhos, mas o círculo do urso não lhe fazia sentido.
- É um guardião assim como eu?!
Por um momento o homem pensou em mentir, contar vantagem sobre aquilo que não era, mas a mentira não fariam diferença naquele lugar escuro.
- Pretendia ser. Por isso andava com o Círculo do Urso.
- Círculo. – O anão refletia. O anel druidico, provavelmente, algo inexistente aos anões que não seguiam esses costumes, porém ouvira algo a respeito vindo dos elfos da Floresta Trintel. – Então. Ubbal, Esquilo-sorrateiro do Círculo do Urso. Onde estamos? – Prostrou-se pé esticando as costas.
- Eu não sei. Você é a primeira pessoa que consigo conversar. O resto todo é abominável. Feras para todos os lados. É difícil sobreviver aqui.
Nosso herói ignorou o medo de Ubbal. De sua algibeira retirou um tecido e dele fez algumas tiras. Amarrou uma delas ao redor da cabeça, tentando um curativo. Tateou as costas e encontrou um espigão cravado abaixo das costelas. Era o que restara da flecha goblin.
- Ubbal. – Pediu com frieza. – Tire de mim.
- Pode piorar. – Comentou com receio.
- Pior que isso não fica.
Entendendo o recado, o esquilo-sorrateiro o fez em uma puxada só. O anão rosnou baixo por trás dos dentes serrados. Um pouco de sangue se esvaiu, mas logo fora contido com mais curativos. Foi então que nosso herói percebeu que estava completamente desarmado. Com fúria na expressão, voltou-se a Ubbal:
- Cadê meu machado?
- Desculpe. – Explicava-se com cautela. – Eu o escondi junto a suas outras armas. É que não sabia quem era você. – Levantou-se e foi a um monte de pedras e ossos, de trás deles retirou o machado de batalha, uma espada curta e duas adagas.
O anão recolheu suas armas e lamentava que seu arco se partisse durante a fuga, ou pelo menos deduzira isso, pois não conseguia se lembrar.
- Qual é seu nome? – Perguntou Ubbal enquanto seguia o anão que começava sua jornada pela fenda.
O anão olhou por sobre o ombro e respondeu:
- Gos.
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