quinta-feira, 9 de julho de 2009

O Nome do Herói.

Existia o som de um riacho próximo. Um simples filete de água que vencia as pedras ameaçadoras do fundo do abismo. Sua cabeça doía e cada ferida em seu corpo ardia como fogo. Instintivamente levara a mão cansada a fronte e percebeu sangue escorrendo pela lateral da cabeça. Ainda meio zonzo, observou o alto buscando a distância da queda. O final da razão, pois a queda seria fatal. Enormes e altas paredes ladeavam o humilde rio, tão altas que o topo naquela manhã não passava de uma vaga visão nebulosa.
Olhou ao redor, dentro da escuridão. Seus olhos de anão penetravam as trevas revelando um mundo em tons de cinza. Milhares de ossadas de diversas formas faziam parceria a hostilidade dos pedregulhos pontiagudos. Entre os restos mortais um homem surgia de seu esconderijo. Uma juba e barba castanha lhe cobria parcialmente a expressão de receio pelo recém despertar de nosso herói, como se ele fosse a grande novidade naquele mundo escuro e sem vento.
- Olá. Meu nome é Ubbal, Esquilo-sorrateiro. – O homem colocou-se sentado ao lado do anão em um salto. Parecia franzino, a sombra de um homem são e saudável de algum passado perdido. – Você cai de qual lado?
Nosso herói fitou acima buscando alguma lembrança, porém, daquele ponto de vista era impossível ser preciso. Balançou a cabeça negando qualquer conhecimento.
- Cai do lado dos gorilas ou dos raptores?! – Aquelas palavras não faziam sentido para ele, mas algo lhe emergia à percepção. Era capaz de compreender o humano mesmo nunca sabendo como falar seu idioma. Arriscou timidamente o dialogo.
- Da onde é?
- Sou da Floresta do Grifo. Era um andarilho. Viajava com o Círculo do Urso. – A Floresta do Grifo lhe era conhecida, a floresta dos homens de cabelos castanhos, mas o círculo do urso não lhe fazia sentido.
- É um guardião assim como eu?!
Por um momento o homem pensou em mentir, contar vantagem sobre aquilo que não era, mas a mentira não fariam diferença naquele lugar escuro.
- Pretendia ser. Por isso andava com o Círculo do Urso.
- Círculo. – O anão refletia. O anel druidico, provavelmente, algo inexistente aos anões que não seguiam esses costumes, porém ouvira algo a respeito vindo dos elfos da Floresta Trintel. – Então. Ubbal, Esquilo-sorrateiro do Círculo do Urso. Onde estamos? – Prostrou-se pé esticando as costas.
- Eu não sei. Você é a primeira pessoa que consigo conversar. O resto todo é abominável. Feras para todos os lados. É difícil sobreviver aqui.
Nosso herói ignorou o medo de Ubbal. De sua algibeira retirou um tecido e dele fez algumas tiras. Amarrou uma delas ao redor da cabeça, tentando um curativo. Tateou as costas e encontrou um espigão cravado abaixo das costelas. Era o que restara da flecha goblin.
- Ubbal. – Pediu com frieza. – Tire de mim.
- Pode piorar. – Comentou com receio.
- Pior que isso não fica.
Entendendo o recado, o esquilo-sorrateiro o fez em uma puxada só. O anão rosnou baixo por trás dos dentes serrados. Um pouco de sangue se esvaiu, mas logo fora contido com mais curativos. Foi então que nosso herói percebeu que estava completamente desarmado. Com fúria na expressão, voltou-se a Ubbal:
- Cadê meu machado?
- Desculpe. – Explicava-se com cautela. – Eu o escondi junto a suas outras armas. É que não sabia quem era você. – Levantou-se e foi a um monte de pedras e ossos, de trás deles retirou o machado de batalha, uma espada curta e duas adagas.
O anão recolheu suas armas e lamentava que seu arco se partisse durante a fuga, ou pelo menos deduzira isso, pois não conseguia se lembrar.
- Qual é seu nome? – Perguntou Ubbal enquanto seguia o anão que começava sua jornada pela fenda.
O anão olhou por sobre o ombro e respondeu:
- Gos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Trancendendo a Morte.

Nosso herói antes estivera seguindo um grupo de goblins e este grupo se unira a outros grupos e logo se tornaram um exército de milhares. E estes milhares marchavam como um corpo único em meio as árvores e o lodo da Floresta Negra. Tais criaturas nunca se agrupavam aos montes fazia anos e o que acontecera no passado foram longos massacres as cidades desprotegidas na época. Sem aviso prévio. O presente seria diferente, pois o nosso herói, mesmo que sozinho, seguia a grande massa de goblins muito de perto. Quando tivesse a chance, avisaria seus irmãos. Conhecia as passagens secretas para a cidade sob a montanha, bastava uma chance.


Quando então nosso herói percebeu que não era o único que seguia. Em meio a mata, um bando inteiro emergia com sorrisos malignos. Estivera cercado e sendo seguido, rastreado. Como pudera se colocar em tal situação sem perceber?! Seu trabalho era o de rastreador e uma das primeiras lições é aprender a apagar suas pistas. Era tarde demais para a furtividade, surpreendido, o atarracado anão sacou seu machado rogando-lhes o desafio:


- Venham cães verdes e orelhudos! – A barreira de idiomas provavelmente os limitava, mas os goblins compreendiam a ofensa, ou simplesmente a entendiam como tal. Com agilidade e esperteza, os pequenos malandros se postaram a cercar nosso herói. O anão percebia que seus antagonistas o espreitavam feito lobos.


Com ímpeto, o anão ruivo avançou à frente quando o círculo se formara a seu redor, tornando a massa menos espessa a mais fácil de penetrar. O grito súbito elevou-se em um tom rouco e ensandecido, os olhos carregados de fogo. O primeiro goblin à sua frente ficara intimidado e pouco pudera fazer quando o machado lhe desceu inquisidor. O sangue quente da criatura espirrou contra as bochechas rosadas e o topo calvo da cabeça de nosso herói.


Um goblin, enraivecido com a recente vitória de seu inimigo, pulou com facas e dentes, porém seu descuido lhe deixara próximo demais do machado do anão que riscou o ar com o aço, carregando consigo carne e sangue. Outro goblin, vindo do flanco posterior fizera o mesmo e este tivera êxito. Sua faca cravara atrás do ombro esquerdo do anão e seus dentes morderam debilmente o alto pelado da cabeça. Nosso herói urrou aos céus. Com uma cotovelada forte, desprendeu a criatura maléfica que caíra sobre o próprio traseiro. No chão era tudo mais fácil e outro goblin era despachado para seus deuses sujos.


Abrindo o círculo, o anão colocou-se a correr sem olhar para trás sem antes não ser perseguido pelos zunidos de zarabatanas e flechas voando ao alto. Praguejando enquanto corria, nosso herói não se dera conta do terreno acidentado e quando descia um declive, caíra nas armadilhas da natureza. Anões tinham pernas fortes e bom balanço, mas naquele dia os fatos se provavam contrários ao mesmo tempo em que ele rolava barranco abaixo.


Antes que pudesse se levantar e se recompor, uma flecha errante lhe cravou nas costas, logo abaixo das costelas. O anão agonizou com a dor aguda no ponto da ferida. Levantou-se trôpego usando o machado como bengala e postou-se a continuar sua fuga.


Demorou a perceber, mas durante sua fuga o mundo ao seu redor se transformava em outro. As árvores e suas raízes, o solo e o ar eram outro. Porém, lá atrás goblins o perseguiam. Não. Seus perseguidores também haviam mudado: homens cobertos de pelo espesso e escuro apoiados sobre os quatro membros e dentes afiados o perseguiam com fúria bestial. Fora o momento de tentar trazer a razão a si. Tudo parecia muito confuso e assustador. Os símios eram dez vezes mais ameaçadores e rápidos que os goblins de antes e não pareciam carregar armas; não pareciam precisar.


Os símios eram mais rápidos, por isso um deles fora capaz de se adiantar sem que nosso herói percebesse e se prostrasse à sua frente encarando com dentes e punhos serrados. O animal se ergueu em duas patas e batucou o próprio peito pelado em desafio. O anão, impressionado com algo tão diferente, ficara pasmo no lugar.


Não fora o símio a sua frente que o atacou e sim outro azougue que pulou em suas costas, agarrando-o primeiro para depois começar a esmurrar-lhe a nuca com diversos golpes pesados e nada precisos. Com o ímpeto da sobrevivência e ignorando a gritaria bestial da fera, o anão o puxou pelo braço que lhe agarrara à frente, fazendo com que seu adversário rolasse por cima de seu corpo de pernas firmes.


O símio terminou indefeso aos pés de nosso herói que sem hesitar o executou. Antes da morte, a fera não pareceu abismada com o fato do fim, parecia não compreender o machado na mão livre do anão. Um animal irracional cheio de fúria, isso era o que os goblins se transformaram junto ao cenário todo.


Em um único pulo, ignorando seus ferimentos e frustrações passadas, nosso herói avançou para cima daquele em seu caminho. Seu grito de guerra fora longo e aterrorizante, pouco soubera que as feras das redondezas se encolhiam diante a voz de seu mestre. O símio alvo entendera a fúria do anão ao mesmo tempo em que tal se entregava a bestialidade e logo a barreira da comunicação entre razão e loucura fora rompida; o símio baixara a guarda diante medo e sem misericórdia fora despachado para o mundo dos mortos.


Terminara sobre o cadáver da fera abatida, em seu semblante a fúria reagia ao raciocínio. Nosso herói arfava sua raiva para fora dos pulmões como um dragão que cospe seu fogo para fora de seu cerne.


- Canalhas! Quem mais quer um pedaço meu?! – Gritava em desafio e este idioma as feras não compreendiam, pois logo começavam a se esgueirar em direção ao anão. Alguns ele conseguia notar, outros poucos passariam despercebido. Nosso herói vivera tempo o suficiente no mundo selvagem para compreender que seus habitantes eram furtivos caçadores, portanto, em sua humildade conseguia prever que mesmo notando o inimigo, existia uma parte dele oculta.


Quando os símios tentavam terminar a caçada, nosso herói postou-se a correr, negando a recente selvageria. Não se entregaria à morte a não ser que fosse momento de morrer com honra. Honra de seu povo, o mesmo povo que deixara para trás afim de viver na Floresta Negra. Viver sua vingança pessoal e infantil.


Suas botas eram leves, carregadas com encantamentos de velocidade, suas habilidades quase místicas meio que sobrepujavam a natureza, fazendo a selva se abrir diante dele, mas o terreno era desconhecido e quando terminou um de seus saltos sobre alguns arbustos de flores escuras, não sabia o que tinha além: Uma longa queda.


E o nosso herói caiu, agora salvo dos símios, porém o real perigo o esperava lá embaixo.