Nosso herói antes estivera seguindo um grupo de goblins e este grupo se unira a outros grupos e logo se tornaram um exército de milhares. E estes milhares marchavam como um corpo único em meio as árvores e o lodo da Floresta Negra. Tais criaturas nunca se agrupavam aos montes fazia anos e o que acontecera no passado foram longos massacres as cidades desprotegidas na época. Sem aviso prévio. O presente seria diferente, pois o nosso herói, mesmo que sozinho, seguia a grande massa de goblins muito de perto. Quando tivesse a chance, avisaria seus irmãos. Conhecia as passagens secretas para a cidade sob a montanha, bastava uma chance.
Quando então nosso herói percebeu que não era o único que seguia. Em meio a mata, um bando inteiro emergia com sorrisos malignos. Estivera cercado e sendo seguido, rastreado. Como pudera se colocar em tal situação sem perceber?! Seu trabalho era o de rastreador e uma das primeiras lições é aprender a apagar suas pistas. Era tarde demais para a furtividade, surpreendido, o atarracado anão sacou seu machado rogando-lhes o desafio:
- Venham cães verdes e orelhudos! – A barreira de idiomas provavelmente os limitava, mas os goblins compreendiam a ofensa, ou simplesmente a entendiam como tal. Com agilidade e esperteza, os pequenos malandros se postaram a cercar nosso herói. O anão percebia que seus antagonistas o espreitavam feito lobos.
Com ímpeto, o anão ruivo avançou à frente quando o círculo se formara a seu redor, tornando a massa menos espessa a mais fácil de penetrar. O grito súbito elevou-se em um tom rouco e ensandecido, os olhos carregados de fogo. O primeiro goblin à sua frente ficara intimidado e pouco pudera fazer quando o machado lhe desceu inquisidor. O sangue quente da criatura espirrou contra as bochechas rosadas e o topo calvo da cabeça de nosso herói.
Um goblin, enraivecido com a recente vitória de seu inimigo, pulou com facas e dentes, porém seu descuido lhe deixara próximo demais do machado do anão que riscou o ar com o aço, carregando consigo carne e sangue. Outro goblin, vindo do flanco posterior fizera o mesmo e este tivera êxito. Sua faca cravara atrás do ombro esquerdo do anão e seus dentes morderam debilmente o alto pelado da cabeça. Nosso herói urrou aos céus. Com uma cotovelada forte, desprendeu a criatura maléfica que caíra sobre o próprio traseiro. No chão era tudo mais fácil e outro goblin era despachado para seus deuses sujos.
Abrindo o círculo, o anão colocou-se a correr sem olhar para trás sem antes não ser perseguido pelos zunidos de zarabatanas e flechas voando ao alto. Praguejando enquanto corria, nosso herói não se dera conta do terreno acidentado e quando descia um declive, caíra nas armadilhas da natureza. Anões tinham pernas fortes e bom balanço, mas naquele dia os fatos se provavam contrários ao mesmo tempo em que ele rolava barranco abaixo.
Antes que pudesse se levantar e se recompor, uma flecha errante lhe cravou nas costas, logo abaixo das costelas. O anão agonizou com a dor aguda no ponto da ferida. Levantou-se trôpego usando o machado como bengala e postou-se a continuar sua fuga.
Demorou a perceber, mas durante sua fuga o mundo ao seu redor se transformava em outro. As árvores e suas raízes, o solo e o ar eram outro. Porém, lá atrás goblins o perseguiam. Não. Seus perseguidores também haviam mudado: homens cobertos de pelo espesso e escuro apoiados sobre os quatro membros e dentes afiados o perseguiam com fúria bestial. Fora o momento de tentar trazer a razão a si. Tudo parecia muito confuso e assustador. Os símios eram dez vezes mais ameaçadores e rápidos que os goblins de antes e não pareciam carregar armas; não pareciam precisar.
Os símios eram mais rápidos, por isso um deles fora capaz de se adiantar sem que nosso herói percebesse e se prostrasse à sua frente encarando com dentes e punhos serrados. O animal se ergueu em duas patas e batucou o próprio peito pelado em desafio. O anão, impressionado com algo tão diferente, ficara pasmo no lugar.
Não fora o símio a sua frente que o atacou e sim outro azougue que pulou em suas costas, agarrando-o primeiro para depois começar a esmurrar-lhe a nuca com diversos golpes pesados e nada precisos. Com o ímpeto da sobrevivência e ignorando a gritaria bestial da fera, o anão o puxou pelo braço que lhe agarrara à frente, fazendo com que seu adversário rolasse por cima de seu corpo de pernas firmes.
O símio terminou indefeso aos pés de nosso herói que sem hesitar o executou. Antes da morte, a fera não pareceu abismada com o fato do fim, parecia não compreender o machado na mão livre do anão. Um animal irracional cheio de fúria, isso era o que os goblins se transformaram junto ao cenário todo.
Em um único pulo, ignorando seus ferimentos e frustrações passadas, nosso herói avançou para cima daquele em seu caminho. Seu grito de guerra fora longo e aterrorizante, pouco soubera que as feras das redondezas se encolhiam diante a voz de seu mestre. O símio alvo entendera a fúria do anão ao mesmo tempo em que tal se entregava a bestialidade e logo a barreira da comunicação entre razão e loucura fora rompida; o símio baixara a guarda diante medo e sem misericórdia fora despachado para o mundo dos mortos.
Terminara sobre o cadáver da fera abatida, em seu semblante a fúria reagia ao raciocínio. Nosso herói arfava sua raiva para fora dos pulmões como um dragão que cospe seu fogo para fora de seu cerne.
- Canalhas! Quem mais quer um pedaço meu?! – Gritava em desafio e este idioma as feras não compreendiam, pois logo começavam a se esgueirar em direção ao anão. Alguns ele conseguia notar, outros poucos passariam despercebido. Nosso herói vivera tempo o suficiente no mundo selvagem para compreender que seus habitantes eram furtivos caçadores, portanto, em sua humildade conseguia prever que mesmo notando o inimigo, existia uma parte dele oculta.
Quando os símios tentavam terminar a caçada, nosso herói postou-se a correr, negando a recente selvageria. Não se entregaria à morte a não ser que fosse momento de morrer com honra. Honra de seu povo, o mesmo povo que deixara para trás afim de viver na Floresta Negra. Viver sua vingança pessoal e infantil.
Suas botas eram leves, carregadas com encantamentos de velocidade, suas habilidades quase místicas meio que sobrepujavam a natureza, fazendo a selva se abrir diante dele, mas o terreno era desconhecido e quando terminou um de seus saltos sobre alguns arbustos de flores escuras, não sabia o que tinha além: Uma longa queda.
E o nosso herói caiu, agora salvo dos símios, porém o real perigo o esperava lá embaixo.
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